Rito do Xamã – Janina

São Lourenço da Serra, 05 a 07 de julho
Rito do Xamã
por Janina Arnaud

Carbeto de Cálcio. Água. Acetileno. Hidróxido de Cálcio.

Pedra que em água pega fogo.

Não querer empedrar a experiência com o contorno das palavras. Não querer endurecer sentidos. Ter rodando em corpo todas as imagens que embebedaram trajeto.

A não-vontade expressa no corpo inerte na cama. Algo já estava morrendo. O gato vomitando aquilo que eu não era capaz. A sensação de que é preciso estar imóvel e em silêncio pra ouvir o ruído da (de)composição de todo agora.

O dilúvio, a negação do caminho, a estrada. Ser forte é poder apesar do incontrolável, ser dona do quando. Quando ser forte. Quando permitir. Quando recuar. “Batalho ferozmente minha ´paz”, lembrei que ecoou quando li. De quem? Caio? Clarice?

Difícil chegar. Às vezes quando tudo estáerrado, não seria porque está dando certo em algum avesso?

Anima, de alma mesmo. Pessoas escorregando inclinações. Em alta velocidade girando como a roda do ônibus. Voando e sendo esmagada. Voando e sendo esmagada.

Ossos tilintando de frio. É preciso alimentar a própria lareira a cada instante. Deixar vivo o fogo que diz sim ao encontro e ao desnudamento das tensões, das emoções, das histórias. Ouvir as importâncias ecoando da boca de cada um.

É bonito o emaranhado de perguntas, o quanto não parecemos ocos do não saber, mas verdadeira preenchidos pela humanidade e finitude que nos habita.

Os olhos teimam em ficar abertos nessa noite também. Na anterior o gato fez do meu corpo terra e posse. Achei estranho, soou aviso. Hoje aquela pressa interna recorrente de quem está sempre atrasada, mesmo antecipando futuro. O frio da ansiedade. Queria entender o lugar. Precisava de algo da montanha de Sísifo pra rastejar lagarta. Nossos corpos precisavam fundir-se para a subida de quem se mistura à miséria do sofrimento e do chão. Sua tarefa tem peso exacerbado de rocha, mas ainda sim quis desafiá-lo. Propor e viver um Sísifo-lagarta.

Subir amarrando-se com o peso dos nós de cada ano de vida. Vinte e sete. Permitindo o tecido do humano, penetrando a maciez mórbida dos corpos cozidos daqueles que nunca voam.

Entregar o peito para a terra, cavar com as próprias unhas um lugar para o coração. Encontrar ali em seu lugar, o nojo, o respeito, a morte da larva branca que saudava o início e o fim de tudo.

Atravessar a ponte das entranhas reviradas, ainda sem luz. Nem sempre o sagrado é solene, as vezes só tropeça e cai. Continua.

Sim. Sim. Sim. Rastejar o desvendamento do sim que parecia algo cego e atrofiado. Pra nascer é preciso querer. Pra nascer é preciso querer o instante.

Subestimei a subida, parecia fácil. Lembrei de Camus dizendo que era preciso que imaginássemos um Sísifo feliz. O meu na dificuldade de amarrar-se, na dificuldade de mover-se,  corpo exposto à terra fria, teve vontade de explodir cada passo, cada pedra.  Bomba no duto!  Rasgar o cordão umbilical do Casulo!

Debatendo e chorando, ruindo por dentro. Implodindo. Demolindo. Como lesma diluindo-se em rastro. Viver ao máximo a impossibilidade. Quantas vezes Sísifo parou? Quantas vezes ele teve vontade de ficar ali chorando, agarrado à pedra?

Parecia suficiente, a ode ao sofrimento, o excesso de esforço. Chega. Chega. É estranho escolher sair da força das próprias amarrações. Como assim escolher seguir? Ao que se agarrar se elas forem embora? A quem se agarrar?

Passou por mim a ilusão da libertação. A vontade do esquecimento completo, do apagamento. A ideia de que é preciso desaparecer com a força de tudo que já existiu em cada célula. Como me livrar? Queimar? Afogar?

Tentei, tentei, tentei…  Alguns nós não saíam. A força da subida se concentrou neles.

Como morrer então?

Assumir. Permitir. Assumir. Aceitar.

Se não posso arrancar as dores do passado, me enfeitarei com elas.  Me enfeitarei orgulhosa de cada rastejar sujo de lágrima e terra.

Elas sim têm força suficiente para serem meus objetos de poder.

 Cada amarração: um enfeite.

O bracelete, o cinturão, o manto.

A cada passo o mergulho no desconhecido. Afinal, qual a diferença entre voar e cair?

A caverna-garganta que tanto esconde resolveu ser avalanche, cada poro tremendo em erupção. Tremor. Tremor. TREMOR. MORTRE. MORTER. MORTE TER.

O deboche, a gargalhada, a pintura de guerra: o poder! SAAAAAAAAAAAAAI! Docasulodaminhafrenteagora! SAAAAAAAAAAAAAAII! SAAAAAAAAAAAAAAIIIIIIIIIIIIIIIII!!!!!

QUEM DISSE QUE NÃO POSSO VOAR SE POSSO CAIR?!

 Hora de destruir a asa. O deboche de todas as vezes que escolhi ser aborto de mim mesma. Que escolhi nunca ter existido em expressão de vida.

O canto, a força das águas geladas chamou para a purificação. A tentativa de me livrar do símbolo que era externo e estava dançando em mãos: a asa da mariposa.

A luz perfurando as árvores. A lembrança do berço da última folha que agora também acolhe a asa e guarda a luz. A luz que sempre encontra fresta.

Não é possível afogar o voo não dado. O voo que não dou nunca perco, mas aos poucos, aqui guardado, vai apodrecendo e contaminando tudo.

O som dos tambores. A lembrança do fogo, marco do “assim é”. Acendi. Ofereci. Festejei o fogo-potência na ilha em meio à queda d’água. A que arrasta, cura, transforma tudo. A que escorria todos os meus corações.

La Llorona estava ali em corpo, em redenção. Ser quem fui sou descobri Xamã.

Som dos tambores. Corrida. Tropeço. A cera da vela vermelha como chaga aprisionando voo à minha mão esquerda. Era isso. A força do deboche era maior do que a de qualquer não realização. Mostraria com orgulho a autoridade das minhas feridas.

Som dos tambores.

Assim, estremecendo, o encontro das profundezas e superfícies dos outros transformados mágicos.

O recolhimento. Os olhares penetrantes, a fuga dos olhares. A minha vontade de explodir tudo. SAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAIIIIIII! Abram espaço pra si! Abram espaço pra mim!

A dança, o chão, o descontrole, a cabeça batendo com força.

A consciência se revirando em escuridão. Apaguei no entre dos segundos. O latejar e rodar de tudo. A dúvida que ainda ecoava sobre a capacidade da morte simbólica, sanada pela ferocidade do incerto, do baque.

Apesar do eco da dor, escolher sustentar o lugar de transformação para poder testemunhar a força e a fraqueza gritante dos outros corpos.

Cada um no seu estado de transbordamento, tateando, reconhecendo ali seus pedaços.

Fechamento. Banho quente com gelo na cabeça. Coexistências.

Ainda aqui, ecoando a palavras da noite: assumir o próprio tamanho. Assumir a grandeza e a pequenez de ser. Habitar cada face com a fraqueza e a força que elas pedem.

Conscientizar e permitir a força desse corpo em trânsito, corpo em fluxo. Corpoquedavooabismo. Corpoquedevoraabismo. Quero tudo com muita fome.

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