13 de junho de 2019

São Paulo, 13 de junho de 2019
por Sol Whitaker

Quinta-feira,

Antes de começar o nosso ensaio, flanei ali, perto da Galeria Olido. Acompanhei o ir e o vir rápido das pessoas. A data 13 de junho ainda é apropriada para quermesses e manifestação folclórica. Mas, ali, naquele lugar, não havia nada disso, ou melhor, havia somente lojas e mais lojas.

Na nossa cultura, os dias 12 e 13 de junho são datas marcadas para a celebração das festas do Santo Antônio. Por isso, fiquei imaginando quão “sagradas” elas eram para alguns casais de devotos do santo casamenteiro.

Com relação aos nossos encontros e ensaios, costumo chegar antes das 18h. Dessa forma tenho tempo de ver as vitrines, o movimento do comércio local, das pessoas e dos vendedores. Nesse dia, flanei eobservei o estilo da decoração das lojas,  caracterizado pelo excesso de brilho e de luz. A construção temática das vitrines é um verdadeiro cenário projetado para dar visibilidade às mercadorias, às prateleiras enfeitadas de corações. Ali, todo o cenário estava “decorado” para estimular as vendas do dia dos namorados. Foi então, que em meio à profusão de signos, pensei em pesquisar o significado da palavra “decorado”.

Segundo o dicionário on-line, a palavra decorar ou “de cor” quer dizer “guardar no coração”. No Salmo 118, versículo 11, está escrito: “Guardei no fundo do meu coração a vossa palavra, para não pecar contra ti.” E todo o restante deste salmo segue dizendo sobre a importância de guardar a lei no coração.

Ao reler o significado da palavra “decorar”, voltei a refletir acerca dos apelos comerciais conectados ao dia do santo, nas vendas de presentes para o dia dos namorados. Lembrei-me também, das cartolinas cortadas em forma de coração. Todos eles ali expostas entre sapatos, perfumes, bolsas dentre outros. Nesses locais, a profusão de signos e do significado da palavra decorar – de guardar “no fundo do coração” estava conectada à venda de mercadorias como elas, fossem uma espécie de “necessidade do amor”.

Depois desse “tour” e quase se aproximando da hora do ensaio, fui ao encontro do nosso grupo. Ali, pronta para me concentrar nas atividades previstas, fui para a sala de ensaio. A primeira atividade da noite foi marcada por uma roda de escuta durante a apresentação de um dos seminários programado. Na ocasião, não houve muita discussão. Depois do seminário e de poucas falas referentes ao tema, fizemos um breve intervalo.

O trabalho seguinte foi conduzido por Jorge. Nessa ocasião, as propostas dele de trabalho corporal foram bem pontuais e incisivas. Deu ênfase à importância do elenco de ter consciência de grupo. Ele também ressaltou o fato de que naquele momento estávamos dançando todos juntos e não separados. A meu ver, o lembrete foi oportuno, pois no relatório anterior, do dia 23 de maio, eu havia mencionado esse fato. Falei que percebia uma lacuna na nossa dança como grupo.

Tratava-se daquilo que no teatro se faz preocupante, os jogos de cena, de dança solo e do/no grupo como totalidade. E como foi anteriormente mencionado, eu percebia todos dançando sozinhos, não como um todo único.

A terceira atividade da noite foi conduzida por Mônica. A proposta era focar na nossa pesquisa, na mitologia pessoal. Dentre outras coisas, fizemos o MAE, o Mandala, a Energia Corporal. Nesse percurso de movimentos, um deles se remetia ao coração. No começo me senti concentrada e focada no que estava fazendo. Depois de algum tempo me transportei para fora do nosso ambiente. Nesse movimento o qual chamo de “passeio mental”, me voltei para a experiência de flanar pela tarde e de fazer um tour por perto da Galeria Olido.  Ao invés de me focar e no MAE, ao contrário disso, me transportei para os usos e significados da palavra coração e dele como músculo. Nesse universo, pensei na sedução e no fetiche das mercadorias, .

Viajei nesse tema e em algumas ilustrações do órgão, de como ele pulsa, expande e contrai, de como é citado e representado na poesia, na música, nas imagens de santos, nas vitrines kitsch e nas mercadorias.

No percurso dessa viagem, “autorizei” o meu pensamento a se deslocar aonde ele quisesse ir. E, na dinâmica desse movimento, me recordei de algumas esculturas de santos específicos, já que o dia e a noite em curso, 13 de junho, era um momento especial, era o dia de ensaio, de fazer referência ao coração e ao santo dos enamorados. Para os religiosos, nesta quinta-feira era também especial por ser o dia de um santo conhecido, importante e que remete aos encantos do amor. Lembrei-me dos hinários antigos, de suas ilustrações cuja figura do coração está em destaque pelo uso do dourado ou de raios reluzentes. Com todas essas imagens em minha mente, subitamente retornei ao nosso foco, ali, naquele espaço. E ali, naquele momento, “re-tomei” à concentração e ao “exercício do coração” mas, ainda atenta aos signos e significados das festas de devoção ao Santo.

Para finalizar depois de todas as atividades realizadas durante o nosso ensaio, senti como nas eu havia trabalhado com uma imensa profusão de pensamentos e de imagens. Por fim, procurei sintetizartudo da seguinte forma: nessa semana das festas de Santo Antônio, as vitrines se enchem de corações. As luzes brilham na nossa sala de ensaio. A decoração se preenche de coração. Nessa noite, durante o MAE, meu coração escapou, passeou para subitamente retornar e depois voltar a flanar.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑

NuTAAN 2016

Núcleo Taanteatro de Formação, Pesquisa e Criação.

Ocupação Taanteatro

A Ocupação Taanteatro no Teatro de Arena Eugênio Kusnet é destinada à apresentação da produção artística da Taanteatro Companhia e da criação autoral de selecionados colaboradores nacionais e internacionais.

[des]colonizações

O Projeto [des]colonizações sinaliza um novo rumo nas pesquisas coreográficas continuadas da Taanteatro Companhia: a aplicação de estudos pós-coloniais ao campo da dança contemporânea. Nesse blog você encontrará informações sobre os objetivos e etapas do projeto. Bem Vindo!

WordPress.com em Português (Brasil)

As últimas notícias do WordPress.com e da comunidade WordPress

Crie um novo site no WordPress.com
Comece agora
%d blogueiros gostam disto: