04 de maio de 2019_imersão

São Lourenço da Serra, 04 de maio de 2019
por Janina Arnaud

4 de Maio

Que delícia a neblina da manhã, a umidade das árvores, o cheiro de café!

Reconfigurações

A floresta nunca é a mesma. O córrego é feito de curvas. Volto a lembrar das veias. Lá frio, aqui dentro quente. Por vezes ao contrário. Poderia estar falando sobre corpo. Também falo. Folha em decomposição. Broto despontando. Resquícios humanos de quem quis queimar o aprisionamento materno na forma de pulôver. Libertações.  Alívios. Resquícios humanos de quem se acha dono o suficiente para destruir tudo: latas, embalagens… Aprisionamentos. Quebro cercas, me assusto, não alcanço chão.

Tudo se amplia quando há olhos para o detalhe. Terreno-corpo. Folha capaz de mergulhar não é levada.  Baixo a cabeça, no frescor fiz-me água. Deixe-se descamar pela mata. O terreno ameaça. Escorrega. Fui deixando a ansiedade entre as árvores. Espero que não tenham ficado ansiosas. Elas me arrancaram. Voltei leve. Em 4 patas é mais fácil ser rocha e lama. Como desmataram seu corpo? Eu não preciso mais carregar essa tristeza. Há uma floresta inteira por dentro da minha memória. Há coisas que não se podem destruir. Desafios. Como sair de um berço de concreto? Como construir o próprio trajeto? Cada espaço é único. O outro pode ajudar, mas é embaixo do meu pé que escorrego ou não. Preciso sentir. Preciso arrancar os sapatos. Confio mais na pele. Apesar de desconfiar porque cada passo é um desconhecido.

Ali nada foi feito para servir. Descoberta é prontidão.  Lembrei do professor de história: “a vida não é uma linha ascendente, retilínea, uniforme. Ela está mais para um monte de rabiscos”. Possivelmente já escrevi isso em algum outro lugar. Frases que marcam, que o corpo cospe a repetir. Aquilo das forças. Das forças. Forças. Aquilo que foge do meu tamanho apesar de estar de algum modo inserido. Natureza. Aquele suspiro de susto. Do incontrolável que fiquei com a mania recente de dizer que salva as existências. Pode matar também.

Tudo ali pede atenção. O corpo não está domesticado àquele terreno. Queria saber como seria estar à vontade ali. Como seria ter sido construída ali. Como seriam minhas mãos e meus pés? Como seria meu olhar e minha força?

Vai devagar. Apenas vai.  Ai, devagar já é parâmetro de quem tem pressa. Inútil pressa.

Bicho besta acha que pode desligar ou ligar a natureza do corpo. A gente esquece porque tem prédio entre os poros. Com concreto no rosto a respiração fica difícil. Às vezes a gente até esquece de se sentir vivo. Só foge. Só finge. Finge estar concretizando coisa. E está mesmo, empedrando coração. Dá medo de mostrar, né? A carne viva do sentir…

Troquei, acolhi, tentei lavar umas 4 vezes na cachoeira. É, o coração… Ele pareceu ir embora. Deu medo de não deixar ele se mostrar. Como é que eu vou ser poesia se ficar escondendo meus buracos?

Susto em forma de latidos. Para de ser indiferente aos atravessamentos! Para de ser indiferente à violência! Para de ser indiferente à própria vontade!

Auto(no)manias

Escolher um lugar na natureza para estar MAE.

Habitar autonomias. Perceber em silêncio as próprias manias. Quero bambu, quero água, quero ponte. Não quero ver essa bolsa. Troca a bolsa de lugar três vezes antes de começar. Não quero ver ninguém, também não queria escutar, parece que não vai ser possível não escutar, tudo bem.

Queria me entregar ao meu tempo, mas medo de ser rápida, medo de ser devagar. Respira, respira. Inteira respiração não tem mais medo. Apenas tem-se.

De zero em zero somam-se inteiros. Ufa!

Posso transitar. Cuidado com as próprias camisas de força! Em meio ao processo nem as escuto mais, elas vão se dissolvendo…

Deixei coração na ponte, lugar de passagem, resgatei em flor pequenininha que foi crescendo e crescendo até voltar a caber no peito. Tive medo de pisar, esmagar. Talvez o tenha feito. Nem vi mais. Fui flecha para o céu. Serpenteei bambuzal. Transformei-me ar, água, terra, lama, pedra, fogo de frente ao Sol. Ardeu. Os pernilongos na pele, as formigas no pé.

De repente tudo dança.  Um corpo imenso silenciado gritando horizontes. Que prazer! Que prazer!

Limpei as mãos de guerreiro, voltei pulando, corri para abraçar rocha, brotaram folhagens das  pontas dos meus dedos, descobri asas, as pinhas se jogaram dos meus abismos, reverenciei, girei borboleta presa na teia, aquela do galpão de ensaio. Ela voa decomposições. Achei bonito porque nem assim parada. Não dá pra fugir da dança. Em algum lugar do seu corpo ela vai arrebentar suas barragens! Confia.

Convivências

Nos primeiros dias: eu, a música, a beleza da sala, a solitude, minhas palavras. Que alívio!

Depois, na mistura dos dias… Que delícia esse milho, seria ótimo com uma cerveja!  Nossa, não dá pra sentir o gosto da sopa depois de tanto milho! Não dá pra parar de comer esse milho!  Cerveja hoje não, amanhã trabalhamos. Conversas na madrugada, depoimentos sobre paixões, sincronicidades, entregas. Que bonito isso! Obrigada pelas inspirações e conselhos! Se você não dizer ninguém vai saber. Será que tô me expondo demais nesse relatório? Ah, não quero esconder que sou gente. Você precisa fazer chegar. Ansiedade. Dói, né? Escancarar-se… Trocando mitologias. Ficou gravado “uma mulher intensa”, algo sobre amor e morte, serpentes, lua cheia, borboletas. Gosto pela escrita. Olhar para o outro ajuda a gente aceitar as beirinhas de nós mesmos. Uma mulher intensa. Uma mulher intensa… Falaram “certeza” ouvimos “cerveja”, paramos tudo, corremos atrás. (risos).

Laje, bar, João, tem de tudo lá, todo tipo de gente. Cerveja, cerveja, cerveja, milho. Tomar a responsabilidade pra si. Guacamole com as mãos. Danças maravilhosas! Arrasta sofá. Milho. Corpos soltos gargalhando. Amizade! Performances divas! Esqueci quais músicas.  Algo sobre a Gal. Vaaaaiii fulanaaa, vaiiii ciclanaaa! Vai fulanoo, vai ciclanoo! Risos! Muitos risos! Sopa gelada. Louça lavada. Sono. Obrigada! a descontração e a conexão podem nos salvar as danças!

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