03 de maio de 2019

São Lourenço da Serra, 03 de maio de 2019
por Sol Whitaker

Eram nove horas da manhã quando todos nós, do grupo NUTAAN 2019, deixamos a residência do casal Maura/Wolfgang para fazer um passeio/caminhada pelas proximidades da casa. Foi um passeio breve, mas suficiente para avivar (sem saudosismos) as lembranças de um tempo da minha infância e juventude em Recife, cidade onde nasci.

Estar ali, caminhando com todos e em contato com a natureza, foi uma oportunidade de sentir quão o corpo e a mente estão carregados de estresse da vida urbana. Naquela oportunidade, ainda sentindo o ritmo frenético da cidade de São Paulo, pouco a pouco fui me desligando para apreciar a paisagem. Nesse movimento, escutei o canto do bem-te-vi e o barulho da água do riacho. Senti o vento nos galhos de bambu e o cheiro do mato. Quase tudo o que eu ali via e sentia me reportava às minhas férias, na zona rural de Pernambuco.

Terminada a caminhada, fomos para o chamado galpão, um local destinado aos ensaios, trabalhos corporais, dentre outros. Ali, durante a manhã, tarde e início da noite, fizemos (orientados por Monica e Jorge) várias atividades e trabalhos corporais. De acordo com as orientações de ambos, procurei explorar a minha dança, trabalhando novas intenções, gestos e movimentos. Nessa perspectiva, incorporei a ideia de que naquela oportunidade o meu corpo era um texto, no qual se inscrevia no contexto do espaço.

Os objetos, as pessoas e tudo mais que ali eu via tomavam parte do contexto, da minha narrativa corporal. Ciente desse fenômeno e com essa intenção, procurei não pensar mais em mim, mas, somente sentir como tudo ali reverberava em mim, portanto, na minha dança. Ao prestar mais atenção nas coisas do que em mim, olhei e escutei tudo o que estava em minha volta: as pedras, as plantas, os sons, o vento, os galhos das árvores e do bambu.

Os sons, emitidos pelos troncos, varas e galhos do bambu chegavam até mim como os de uma orquestra. Ou seja, quando os músicos afinam seus instrumentos antes de qualquer apresentação.  A paisagem sonora formada pela totalidade de todos os “instrumentos musicais” (os bambus) me remetia a algumas lembranças de um tempo específico em minha cidade, Recife. De certa forma, elas serviam para ilustrar o meu “corpo-texto”. Nesse contexto, o som dos galhos e das varas do bambu se encostando uns nos outros era como se todos estivessem se afinando. A “afinação” deles todos me conduzia a uma fase de nossa habitual presença (aos domingos), no Teatro Santa Isabel do Recife. Nesse tempo, meu pai costumava levar nossa família à apresentação da orquestra sinfônica do Estado.

À medida que eu ouvia a “afinação orquestral” feita de galhos e varas dos bambus, eu dançava junto e com ela. Dessa dança, surgiu o contrastante entre os experimentos de novos gestos e intenções naquele momento e o passado, lá em Pernambuco. Novamente tornei a me lembrar do campo, mais precisamente da fazenda do meu pai em Pernambuco. Transportei-me para lá e pensei na realidade do presente. Ou seja, na devastação de quase tudo que um dia foi fauna e flora e “desapareceu” para dar lugar aos interesses do chamado “progresso”.

Ao final de tudo, no mesmo dia, (depois de muitas horas de trabalho corporal), o meu corpo estava leve e flexível. Eu o sentia com a mesma flexibilidade de um galho de bambu. Com essa sensação, de “Ser” nada – olhei para o entorno, para todo o galpão. Percebi, então, que ali, bem perto de mim, estava e ainda está um jardim. O batizei de “jardim de pedras”. Nele, as pedras “povoavam” e ainda povoam o espaço onde habitam. Verifiquei com mais cuidado algumas delas e percebi os variados tamanhos e formatos. Em algumas, pude ver e ler expressões de rostos humanos. Ao vê-los, imaginei todos dançando dali comigo. Essa revelação/imaginação ali, naquele momento, foi uma espécie de festa dançante, de “delírica” dança.

Em resumo, os dias e momentos em São Lourenço da Serra foram todos produtivos e gratificantes.

Esse relato foi fruto das minhas anotações em São Loureço da Serra, no dia 3 de maio de 2019.  Agradeço a oportunidade de poder participar de todas as etapas do trabalho de imersão do NUTAAN 2019. Obrigada Maura, Wolfgang, Mônica, Jorge e todos os demais companheiros.

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